sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Ser, estar, sentir nojo e deslealdade.

Sentir nojo de alguma coisa ou alguém é sempre ruim. E nojento. Se você sentir nojo de alguma coisa da qual você faça parte, então, é pior ainda. Não necessariamente irá sentir nojo de você mesmo, neste caso. Por dois motivos. Primeiro, você pode ser um canalha, sem escrúpulos e que simplesmente não se importa se está fazendo o certo ou o errado e no que implica suas ações. Segundo, e se for o caso, é bem melhor que seja assim, - porque eu me sinto assim-, você pode sentir nojo de alguma coisa da qual você faça parte e mesmo assim lutar contra o que há de errado nela. Vou ser mais explícito.
Faço parte de uma corporação a qual deveria servir de exemplo de conduta administrativa e humana, como se fosse possível separar as duas coisas. Sou Policial Militar. Quando cruzamos a fronteira para a caserna, normalmente, chegamos idealistas, legalistas e vários outros adjetivos “istas” que se pode imaginar. Mas eu disse “normalmente”, porque alguns já veem com defeito de fabricação. Eu cheguei um “ista” também. Mas lá, na corporação, você vê tanta coisa errada que constantemente se pergunta se vale a pena lutar contra o sistema, se vale a pena insistir nisso tudo, se vale a pena arriscar sua vida constantemente, se é melhor seguir a maré e deixar-se levar pela onda e ser igual à minoria dominante (contraditório isso, não é?), ou se é melhor desistir logo e tentar outra coisa, outro ramo, outra profissão.
Mas não. Se a pessoa se torna policial por acaso, não é por acaso que ela continua policial. Depois de um tempo entendemos a diferença entre ser e estar. A maioria de nós apenas está alguma coisa. Ser alguma coisa é algo muito maior, muito sublime. Lendo “Elite da Tropa 2” identifiquei bem isso. Naquele livro podemos ter uma noção, ainda que pequena, da máquina de fazer dinheiro e loucos que se tornaram as Polícias do Brasil. O tanto que se ganha no pessoal e o muito que se perde no coletivo.
Hoje olho todo caminho que percorri e vejo que apesar de pouco tempo deu para ter uma noção do terreno tortuoso que me encontro. Sei que não passei nem metade das dores e das vitórias que um policial pode passar. Mas hoje sei também que o nojo que sinto não é da polícia. Longe disso. A Polícia até faz a parte dela à medida que subliminarmente diz a você para que faça apenas o que for necessário. Muitas vezes nós é que complicamos. Hoje sinto nojo é da corrupção. O pior bandido para mim é o policial corrupto, porque além de não respeitar a corporação, ele não respeita a si próprio. Ele é desleal a ele mesmo. 

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